terça-feira, 20 de março de 2012

Nem sei se grite, ou se berre

É assim, o nosso Portugal. Onde tudo é política. Há uns tempos contei uma história, entretanto eliminada por ser demasiado triste e demasiado pessoal. Mas a revolta, a tristeza, o sofrimento, é tanto, que tenho de escrever. Já aqui havia comentado que o meu relógio biológico rebentou. Sentia uma necessidade premente de ser mãe. No entanto, recebida a confirmação de um diagnóstico menos favorável, e confrontados com três duras realidades, não deixámos de acreditar que conseguiríamos alcançar o nosso objectivo. Diagnóstico: portadora de FSHD, distrofia facio escapulo humeral; 50% de probabilidade de transmissão. Possibilidades: 1) fertilização; 2) teste pré-natal; 3) não ter filhos. A primeira possibilidade foi uma luz ao fundo do túnel. Lá andei a investigar na net, e as minhas esperanças foram renovadas quando o Hospital Quiron, em Barcelona, comunicou o primeiro sucesso na pré-implantação de um embrião livre da doença (aqui).

Avançámos com o processo para a maternidade Alfredo da Costa, onde ficámos a saber que a prioridade era: os abortos, e não as fertilizações. Uma mulher pode abortar as vezes que quiser por ano, que o Estado paga, mas só pode fazer um tratamento de fertilização por ano, politiquices. Palavras do médico. De qualquer modo, fomos esclarecidos que a MAC não faz este tratamento. Solução: Hospital S. João do Porto. Lá fomos. 2 vezes. Levando a esperança como única bagagem. O médico basicamente disse: - não é grave, já que ninguém morre disso; - não é 100% fiável a pré-implantação, já que os genes podem ter diferentes comportamentos isoladamente e em grupo; - ao optar pela pré-implantação, mesmo que tenhamos sucesso, pode o feto correr o risco de desenvolver outras doenças, tais como cardíaca, pulmonar, ou mesmo cerebral; - podem optar pelo teste pré-natal, um exame que se faz às 12 semanas, se o resultado for positivo, pode abortar. Ainda lhe disse: "Mas, em Espanha fazem", ao que ouvi: "Em Portugal temos um código deontológico diferente". Pois. Palavras bonitas para conclusões tristes. Voltámos, vazios de esperança.

Passado um ano, voltam a tocar na ferida. A médica que abriu o nosso processo acaba de me ligar. Queria ter a certeza de que havíamos percebido direitinho o que o médico nos havia comunicado. Limitei-me a um "Sim". Voltou a falar do teste pré-natal. Nego-me a abortar. Não vou abortar cada feto que seja portador. Desconfio que passaria a vida a matar inocentes.

Na idade de mostrar ao mundo o desejo de ser mãe, numa altura da vida em que todas as primas estão grávidas, eu, tenho de reprimir esse desejo.

Algumas pessoas entendem que estou a ser egoísta, por desejar um filho. Mas, e se ele nascer sem a doença? Já pensaram nas mães saudáveis cujos filhos nascem com outras doenças? E, os bebés que nascem saudáveis e depois, culpa de um acidente, ou de uma irresponsabilidade, ficam em situações bem piores? Será que todo o amor que tenho para dar não será suficiente? Negar-me à maternidade, é negar o meu bisavô paterno, a minha avó paterna, o meu pai, e mais importante, negar-me a mim. É uma doença que afecta 4-6 pessoas por cada 100.000 habitantes da terra, não se limitando à hereditariedade. E agora? Às vezes penso, porque raio fiz a m* do teste? Se em tempos critiquei os meus irmãos porque não tiveram esse cuidado, neste momento, dou por mim a pensar que eles é que estão bem. Os meus sobrinhos são lindos, crianças saudáveis. Se têm ou não? Não sabemos, sabemos sim, que à sua maneira, são felizes. Estou cansada de pensar nisso, cansada de tentar perceber as mudanças que se vão verificando em mim, e nos outros, cansada de comparar, cansada de ter esse pensamento no meu subconsciente. Cansada de chorar.

Acreditando que um dia será diferente, vou beber um cafézinho.

10 comentários:

  1. Pois é, o mais chocante disto tudo, para além da tua situação muito triste, é o facto do aborto em portugal ter mais apoio do que casos como os teus. é triste. coragem!

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  2. Só posso deixar um grande abraço e muita força e coragem. Acho que pensaria o mesmo se estivesse na sua situação e não deve desistir de ser mãe. Tem muito amor para lhe dar.
    Quantas crianças são saudáveis e não recebem amor dos pais??? Isso sim é egoísmo.

    De qualquer forma, compreendo a delicadez do assunto

    Muita força

    Beijinhos

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  3. Minha querida, é uma decisão e uma situação muito ingrata :(
    Beijinhos grandes!

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  4. Não sei o que dizer... É tão triste, tão revoltante... Um grande beijinho e força!

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  5. O comentário da Tixa... é isso.
    Eu queria tanto conseguir ter uma palavrinha útil de apoio mas... só posso desejar-te coragem, sorte e amor.

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  6. Não acho que estejas a ser egoista, e sabes o que passei e não desisti! Força. Não quero que te sintas derrotada! Hás-de conseguir! Beijokinhas. (Estou longe, mas estou contigo...)

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  7. Não te arrependas do que não fizes-te...
    Tens de pensar que a vida não se faz de "se's"...

    O que decidires de certeza que será o melhor para ti...

    Um beijo grande!!! FORÇA!

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  8. Querida, nem sei que te diga, coragem, acredito que nem sempre seja fácil mas não desanimes.
    Um beijinho

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