quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um apelo...

Nem sei como juntar as letras, para organizar o que me vai na alma...

Ontem, fiquei com o meu coração esmagado. Assim, do nada, fui convidada por uma amiga para ir ver a peça "Uma noite na casa de Amália" do La Féria. Até aqui, nada de extraordinário. Foi, depois de ter o bilhete na mão, e depois de ter ido beber um café com o pai e a mãe, que foram igualmente presenteados, que fui confrontada com mais uma vantagem de trabalhar em casa. Quando trabalhamos em casa, ficamos protegidos das desgraças que povoam as ruas da cidade. Desgraças que mais não são do que histórias de vida. Umas, mais tristes que outras. 

Fomos abordados por uma rapariga. Provavelmente com a mesma idade que eu. Inicialmente não parecia, como dizer..., sem abrigo, não vale a pena esconder a verdade das palavras. Vestida com umas calças pretas e um blusão preto de napa. Cabelo curto e, olhando-a de perto, com marcas no corpo. Seriam mais tratos? Seria auto flagelação?

Disse ter fome e pediu-nos um prato de sopa e UM SORRISO. Percebia-se o tom de desespero no seu apelo. O meu pai, um pouco mais insensível, disse para continuar a andar, pois ela queria dinheiro. Eu, fiquei ali, petrificada, a olhar para ela e a pensar: "meu deus, o que devo fazer?". Ela percebeu que eu estava preocupada e pediu para eu ir com ela ao Celeiro, que ela comeria a sopa comigo. Eu perguntei-lhe: "Mas porque tem de ser no Celeiro? Isso fica aonde? (eu sei onde fica, mas o meu cérebro estava tão paralisado quanto o meu corpo) Porque é que não pode comer a sopa num destes restaurantes?". Ela respondeu que não podia comer alimentos com glúten (usou a expressão que começa com "c" e que costuma vir nas embalagens, e que não encontro em lado nenhum, nem na net...) e que tem cancro.

Eu senti-me esmagada no meu mundo. Ela só dizia, em direção ao meu pai, "Eu não sou nenhum monstro." e as lágrimas começaram-lhe a cair. Tirei as poucas moedas que tinha, do troco do café. Uns míseros 1,5€ e disse-lhe para tentar conseguir mais ao longo do caminho. Dei-lhe a garrafa de água que tinha acabado de comprar e que tinha aberto. Ela aceitou. Eu pedi-lhe desculpa, toquei-lhe no braço como que tentando confortá-la e dei-lhe UM SORRISO.

Durante a peça não pensei mais na rapariga, mas quando vinha no caminho para casa, e já em casa, ela não me saía da cabeça. Desabafei com o S. e falei sobre a dor que havia sentido. Só me vinham palavras à cabeça como a dignidade humana, como as histórias, as escolhas de vida, e suspeito que a percentagem de pessoas que se sujeitam livremente e que rejeitam uma mão amiga, deve ser mínima. A tristeza é tamanha que não cabe no meu peito. Já no quentinho da cama e num abraço apertado, continuavam a soar-me na cabeça as suas palavras e as lágrimas caiam e eu não as conseguia segurar, assim como agora não consigo.

Como é possível existir tanta miséria? Eu sei que as pessoas que estão sozinhas e que vivem em condições menos seguras e saudáveis, podem ter cometido muitos erros, podem ter tomado as decisões menos correctas que as levaram a esse fim. Mas, será que não merecem que lhes demos UM SORRISO?

Eu pensei que podia ser eu. Que não sei o dia de amanhã. Que não sei se aquela rapariga poderia ser minha filha. Tive a certeza que ela é filha de alguém, é neta de alguém, pode ser irmã de alguém, tia de alguém, e só pede uma sopa e UM SORRISO.

Este espaço é muito pequeno, e sinto-o como uma gota na totalidade dos oceanos, mas deixo um apelo. O meu apelo é para que quem ler este texto, lembrar-se de levar na mala uma sandes e uma garrafa de água, sempre que sair de casa. Alguém há-de precisar. E lembre-se, leve UM SORRISO.

13 comentários:

  1. É um choque, não é? Quase que nos sentimos mal por ter alguma coisa. Muito ou pouco...temos com certeza mais do que muita gente. Saber que existem estas situações é uma coisa...vê-las é outra. Eu fico sempre em choque, e não devia, porque antes de "mudar de profissão" vi muitas situações complicadas e com crianças. Mas nós nunca nos habituamos a estas coisas. Essa foi uma das razões que me fez mudar de profissão (assistente social). Em Portugal pode-se fazer muito pouco por quem realmente precisa.
    Bjs Ana

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  2. Como te compreendo... Nunca na vida poderia ter uma profissão como a tua. Acho que passaria os dias a chorar e em total desespero por poder fazer tão pouco. Ontem comentei com o S. que sempre que oiço alguém fazer previsões acerca de como faria uso de um prémio como o do euromilhões, a primeira coisa que planeiam almeja sempre a satisfação dos nossos desejos e sonhos, muitas vezes, meros luxos ou caprichos, mas não oiço ninguém prometer ajudar os desconhecidos. Não oiço ninguém prometer organizar um centro para os sem abrigo, para alimentar e apoiar quem mais precisa, sem olhar a laços de sangue ou de amizade. Não sou nenhuma santa, pois incluía-me no mesmo saco.

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  3. Apelo recebido com carinho e emoção! Fizeste aquela moça mais feliz ontem!
    Vamos ter mais atenção com quem precisa e mais palavras reconfortantes! E como o País está, nós estamos agora mais próximos de viver uma situação destas!

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  4. Eu moro num sitio que graças a Deus não vejo essas situações..mas quando vou a algum lado e vejo também me aperta o coração...mas também sou sincera...e talvez egoísta...mas há alguns que não apetece nada ajudar...ao contrário dessa rapariga são mal educados e agressivos...(devem ser os que estão há espera da moedinha para a próxima dose)a esses nunca ajudo....sou jovem e também já passei e vivi muita coisa...e sei que hoje em dia toda a gente sabe o que é a droga e só se lá mete quem quer...a estes não ajudo...agora outras situações..cm a dessa rapariga...aperta o coração :(

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  5. Se todos fizermos um mínimo, todos os dias do ano, não só nesta época, com certeza que diminuiremos a tristeza de outros, e é impressionante como às vezes um gesto tão pequeno faz toda a diferença. Gostava que o destino desta rapariga fosse diferente do que é possível prever-se. Gostava que o simples facto de eu a ter escutado, fosse a luz ao fundo do túnel de que ela tanto precisava. Gostava de lhe ter dado um abraço, mas não dei.

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  6. M, tens razão. Existe essa percentagem que não quer ser ajudada, provavelmente porque também não reconhece que precisa, ou não quer ter a força interior (ou não acredita que a tem). Vivi num bairro, onde convivíamos paredes meias com a droga. É triste saber que os da geração da minha mãe, e da minha também, estão a morrer por causa disso. Cada vez que visito o meu avô, fico a saber que mais alguém morreu. Morreu um pai, ou uma mãe, ou um filho. Miúdos que cresceram com a minha mãe, ou com quem eu brinquei. É desolador. Mas, é como dizes, actualmente ninguém pode dizer que não sabe o que é, que não sabe os resultados. É só andarmos nas ruas estreitas da cidade para percebermos o que isso é. Por ter vivido isso, mais ou menos de perto, é que nunca aceitei fumar um cigarro. Por medo das consequências.

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  7. Arrepiei toda ao ler o teu post fiquei com imensa pena dessa rapariga mas infelizmente a miséria existe.
    Por aqui não se vê talvez esteja escondida com a vergonha.
    Mas doi ver a realidade.
    bjs

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  8. Eu quase morro quando me deparo com essas situações. Dinheiro não costumo dar mas comida (se eu puder) dou sempre.
    Beijinho

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  9. Esta situação tocou-me. E sinceramente tenho algum receio do futuro no que diz respeito a sobreviver nesta vida. A ter o seu ganha pão ao fim do mês...posso imaginar quantas famílias neste momento andam desesperadas e que passam fome, mas ninguém pode imaginar a tamanha dor que esses seres vivem e sentem dentro de si. Deve ser como ver um poço fundo onde a luz não aparece, onde as soluções para sair dele são quase nulas. É triste, mas pronto.

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  10. Rita, querida, eu que ando com as emoções à flor da pele, senti-me profundamente tocada pelo teu relato. Muito comente.

    A arvore veio da Alemanha. Simplifiquei a decoração ao máximo e só existe porque foi feita antes do fatídico sábado.

    Beijo da Nina

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  11. Olá :-)

    Infelizmente deparam-se-me situações como as que descreveste muitas vezes...

    Geralmente nunca dou dinheiro, mas entro sempre num supermercado com a pessoa e compro-lhe o que ela diz precisar (tendo em conta as minahs possibilidades, claro), faço isso SEMPRE que me abordam... dinheiro já sou mais retincente em dar, porque sei bem que é para tudo menos para matar a fome.

    É uma situação tocante essa que relatas, imagino o teu sofrimento pois no início também eu ficava na lama... :-(

    Beijinhos, o teu apelo encontrou caminho na minha bolsa. :-)

    Isabel

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  12. Olá Isabel! Agradeço o teu comentário. Certa da tua bondade, acredito que estás a fazer a diferença! :)
    Beijinho

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  13. Eu trabalho na Av. da Liberdade e todos os dias no meu percurso Cais do Sodre-Av. da Liberdede, miséria é coisa que não falta :(
    Entristece-me principalmente os velhos e angustio-me muito pensar que o meu futuro, ou o dos meus, pode ser assim...
    Beijinhos

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